A história passa por uma rua

Foto retirada daqui.

calle Feria está entre as minhas maiores saudades. Lembro de caminhar um dia por ali e ouvir uma música do Pink Floyd que parecia sair da própria rua. Era por ali que eu passava todos os dias  quando voltava para casa depois dos meus passeios noturnos. Um homem, jovem, com barba e   “roupa de usar em casa” ficava deitado ali na varanda, no último andar de um prédio antigo, ouvindo rock progressivo todas as noites, durante várias semanas. A rua ficava com uma cara especial, embora a vida dele parecesse uma melancolia sem fim.

Em um outro momento, o que me chamava atenção era o movimento das tardes. Em Sevilha, a siesta realmente existe de duas às cinco, todos os dias, sem feriado. E não há mal algum trabalhar um pouquinho borracho, que seja. Na calle Feria, os sevilhanos são ainda mais sevilhanos.

A rua era composta basicamente de : bar-bar-bar-prédio-bar-loja – bar- bar- igreja – bar-  freiduria- bar- bar- mercadillo- bar.

Nos dias de semana, as concentrações eram no mercadillo. O mercadillo da calle Feria vende peixe, vende flor, vende sorvete e vende cerveja. Mas, durante as tardes, eu só via rolar a combinação de cerveja com caracoles – que são sim, caracóis, com aquelas lesminhas dentro e tudo – que os espanhóis adoram. As rodas de conversa rolavam solta no horário livre da tarde e o mercadillo, segundo eles, era dono de um dos melhores caracoles da cidade. Não muito longe, na mesma rua, as freidurias também lotavam, quando a preferência era por pescaítos fritos – assim, com o acento andalú.

Um dos bares mais tradicionais fica cheio aos sábados, quando acontecem vários casamentos na Parroquia de Omnium Sanctorum. Os senhores sevilhanos, os mesmos que lotavam a Plaza de Toros a partir do mês de abril, passavam a tarde ali, saboreando uma cañita, enquanto os padres casavam suas sobrinhas, primas ou amigas distantes. Era difícil ver uma mulher neste ritual – elas continuavam na cerimônia.

Outros dois bares, mais escondidos, eram os meus preferidos. Ficavam em uma esquina, seguidos por uma praça pequena e pareciam bares de amigos e para amigos. Bom, eu não era nada de ninguém, mas estava sempre por lá, observando. A decoração fazia lembrar um brechó e a comida, simples, era deliciosa. Foi ali que, por muitas vezes, eu vi vários grupos se reunirem com instrumentos musicais mil e cantarem o flamenco. Em pouco tempo, as mulheres levantariam para dançar e, os homens, acompanhariam a música com as palmas. Uma dessas rodas acabou um dia, sabe-se lá porquê, com um “Brasil, meu Brasil brasileiro, meu mulato inzoneiro..”, sob meu olhar admirado e calado.

Outra paixão era o La Bicicleteria. Também em uma esquina, ele era todo escuro, com poucas cadeiras e dois cachorros enormes e lindos, que deitavam no meu pé enquanto eu tomava minha cerveja. Velinhas nas mesas e uma decoração incrível. Tinha ainda o La Estraza, tapas rock bar, que abriu pouco antes da minha chegada e era ponto de encontro dos tatuados e rock´n´rolls. Entre os dois, tinha  também a  Vanesa, aquela francesa com sotaque espanhol engraçado, que resolveu inovar e abrir um brechó na rua – o Reciclarte. E, na frente, uma loja de música underground.

Foto retirada daqui.

Por representar tão bem Sevilha, a calle Feria também guarda muito de religião. Mais do que uma santa negra vestida de azul em um pedaço de parede na rua, a rua tem ainda a honra de ser visitada anualmente pela confraría de Esperanza Macarena. Isso significa que a procissão mais bonita da Semana Santa, que passa de madrugada, dura 14 horas e é recebida por uma chuva de pétalas, passa por ali. A observação é que, neste ano de 2011, pela primeira vez em 80 anos, a única nos meus 22 anos de vida, a procissão não passou por causa da chuva – e todos aqueles vídeos, a cobertura da tv e a expectativa ficaram para próxima.

Vale explicar, por fim, que minha paixão por essa rua começou pelo início de tudo. A calle Feria leva esse nome desde o século XIII, quando começou a acontecer ali a mesma feirinha que eu frequentei por tantas quintas de manhã. Posso declarar que das melhores sensações era esquecer disso e, de repente, trombar com aquele tanto de tendinha no chão, hippies, senhores, turistas, gitanos, tentando conquistar clientes no grito. Foi ali que, pela primeira vez, eu me senti em Andaluzia. Foi ali que, também de surpresa, eu vi minha segunda banda preferida fazer um pocket show para vender seu novo disco. E foi dali que eu descobri a música da, sim, minha primeira banda preferida, que dizia:  “la vida de la calle Feria la llevo muy dentro desde que nací”

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