Agujero

No alto de uma montanha, em um trajeto que me levava de Ouarzazate a Essauira, comecei a repensar minha vida. Nao sei muito bem qual foi o momento em que comecei a me tornar a pessoa que queria ser. Há pouco tempo, essa primeira frase poderia ser uma criação de uma autobiografia inventada. Mas um dia, ela realmente virou parte da minha vida. Um passaporte bem carimbado, mas uma dificuldade de compartilhar essas histórias com alguém. Não sou sozinha mas, quando as coisas são minhas, é difícil transmiti-las em palavras. Conto bem sobre a vida dos outros.

O mundo já foi descoberto. As coisas me tocam quando vão lá no fundo, quando mostram atrás da capa do turismo e do ideal que queremos encenar. Ouvir o sino que chama para a oração, ver um homem correndo atrasado para a Medina, enquanto se descalça. Aquele moço simples, que me alugou um quarto e um dia pediu para que as vizinhas cozinhassem uma grande panela de cuzcuz de despedida para mim e meu amigo. Viajar no Marrocos me fez pensar no Vale do Jequitinhonha. Em como é preciso ir tão longe para ver realidades tão próximas. E se sensibilizar com elas.

No Marrocos eu vi que, enquanto a fé organizar as diferentes sociedades, eu continuo acreditando que todos temos um buraquinho que quer ser ocupado por algo maior e pleno. Eu não tenho religião.

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