Anyway

Descobri na minha irmã o jeito peculiar de anunciar noticias trágicas nos idos de 2006. Na minha aula da noite preparatória para o vestibular no colégio, o celular tocou e ela soltou: “tia Valéria bateu as botas”. Inevitável não saber o que pensar, principalmente quando lá dentro dá até mesmo uma vontade de rir: onde essa menina aprendeu isso?

Anos depois, voltando cansada para um hostel adocicado com olor mofo, num fim de tarde frio e úmido, liguei para casa do orelhão – que certamente em Paris não tem um nome tão chulo – para saber como minha família estava. Minha irmã, já adolescente, atendeu empolgada e soltou: “Bi, você sabe da última?!!”. Poderia prever uma gravidez inesperada da prima ‘futuro perfeito da família’, um bafão global, o lançamento de um catálogo de moda, o novo cd do furacão 2000, ou até mesmo um golpe de estado. “A Amy morreu”.

A Amy embalou muitas das minhas tardes universitárias, virou presente do namorado e me fez querer cantar alto – quase com a mesma vontade de rebeldia reprimida que elis balançou os jovens da geração passada. Amy foi minha musa inspiradora pirilouca, porra doida, minha vontade de viajar de carro por aí. Mas frustrei as expectativas da minha irmã, simplesmente por não saber como reagir àquela notícia meio engraçada.

Eu estava feliz naquele cantinho estranho, com uma linda recepcionista negra que falava francês e a nutella do café da manhã. Lembrei as tardes no Camden Town, com a esperança de cruzar com ela por algum canto, e tomarmos um shotzinho de leve juntas. A saudade veio depois, na hora de faxinar o quarto, de pegar trânsito, de acordar domingo de manhã. Na hora de comemorar a música inesperada no rádio e no apertar o repeat até cansar.

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Quem não tem Amy, canta com Dionne.

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