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Botaram cadeado no portão

Botaram cadeado no portão

 

Nesses tempos de doença, dormimos com a vovó e ouvimos histórias de café da manhã. Ela contou sobre a guerra, sobre a ditadura e sobre o footing com detalhes que valem mais que as próprias histórias: “quase me prenderam uma vez  porque eu quis agredir um policial”. Vovó contou também sobre o vovô, o namoro escondido, a outra noiva da história. O romantismo de namorar um estrangeiro, um arquiteto/artista com cara de comunista e todo o preconceito que a diferença desperta.

Vovó quase devolveu o vovô para a ex-noiva, por acreditar que aquela – que casou com um ex-missionário e nunca teve filhos depois de ter sido abandonada – gostava mais dele do que ela própria. Mas não o fez. E completou em meio a gargalhadas: “minha mãe não entendia onde eu podia ter engravidado antes de casar. Eu expliquei, com muito respeito, que foi ali mesmo, na casa dela, um dia que o telefone tocou no quarto dos fundos e eu tive que atender”.

Desde essa ligação, viramos sete, que se desdobraram para dezessete – ou un poquito más – e agora somos quase 30. Não consigo imaginar quantos telefones tiveram que tocar para que isso acontecesse, mas fico com a curiosidade de querer saber quem estava do outro lado da linha quando essa história começou.

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