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Cabra macho

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Velho Suassuna: crítico e lúcido, como sempre

Bráulio Siffert

Certamente boa parte das pessoas que lotaram o Museu de Artes Ofícios nesta terça-feira (22) para ouvir a aula-espetáculo de Ariano Suassuna está da cabeça aos pés imersa neste mundo da fugacidade, da dispersão, da pouca leitura, da overdose de informações, do prazer efêmero e da comicidade (talvez compareceram ao evento principalmente por conta desse último ponto). Tais pessoas puderam dar boas risadas com as histórias da cultura popular contadas por Suassuna. Mas com certeza riram com uma certa dose de vergonha nas vezes em que o velho dramaturgo de 84 anos, de uma geração muito mais séria e inteligente que a nossa, criticou ídolos e fatos aparentemente tão unânimes e exitosos, como   Lady Gaga e o festival de rock SWU, ou quando citou grandes nomes da literatura universal, como Dostoievski, Tolstoi, Machado de Assis e Molière. “Sucesso é fácil. Basta tirar a roupa e correr na rua. O êxito é que fica, e poucos são os exitosos”, disparou com sua voz rouca. O que poderia parecer anacrônico, por vim de alguém que atravessou o século, soa absolutamente atual, em uma época em que para fazer sucesso basta estar na grande mídia. E para estar na grande mídia em boa parte das vezes não precisa sequer ter talento.

De fato, Suassuna é um dos poucos que ainda consegue levar produção de alta qualidade para um público tão diverso, e ele, sabendo disso, aproveita para cutucar, fazendo o humor consagrado por Charles Chaplin e tão “fora de moda” atualmente: um humor inteligente, crítico, conectado com a historicidade.

Além desse ponto principal, o autor d’O Auto da Compadecida tratou de outros também importantes, sempre por meio de causos populares. Recuperando Dom Quixote de Cervantes, Suassuna disse que toda obra de arte começa no local, no particular, mas as grandes obras são aquelas que tratam de situações universais da humanidade, como morte, amor, injustiça, ciúmes.

O amor, inclusive, também recebeu atenção: por causa de sua dolorosa infância (que inclui o assassinato do pai), Ariano disse quedentre os dois grandes modos da dramaturgia – o doloroso e o cômico – ele só conseguia escrever no doloroso, até quando, aos 20 anos, conheceu a mulher com quem está até hoje: “o amor abriu o nó e o rancor que eu tinha no peito. E aí enfim eu consegui começar a escrever no campo do cômico”.

A política merecidamente recebeu suas críticas. O dramaturgo disse ter sido o único Secretário de Cultura de Pernambuco que viajou pelo interior, conhecendo, divulgando e contribuindo com a cultura popular do sertão daquele Estado. Disse que dessas viagens surgiu um circo popular, que até hoje existe e continua viajando o mundo.

Parabéns ao velho Ariano Suassuna, que apesar de não gostar de viajar (dizem, aliás, que ele nunca saiu do Brasil), veio mais uma vez à Belo Horizonte nos brindar com mais essa autêntica aula-espetáculo.

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Esse não é o meu primeiro blog. Tive outro, o primeiro, há quase cinco anos – quando começava o curso erro de jornalismo. De lá pra cá, eu pensava que a diferença substancial entre o que era minha percepção de mundo e o agora era só a desilusão: tantos mundos meus caíram nesse ínterim.

Mas a verdade é que eu percebi mais.

Ariano Suassuna veio à BH essa semana para apresentar uma aula-espetáculo no projeto Ofício da Palavra, do Museu de Artes e Ofícios. O mestre, grande defensor da cultura brasileira, apareceu por essas bandas também em 2007, convidado pelo TEIA. Eu cursava o segundo período do curso de jornalismo e me entusiasmei a escrever sobre.

A visita de Suassuna à BH neste novembro me fez reencontrar aquela que eu fui, em outra época. Dessa vez eu não pude visitá-lo, mas me senti muito representada quando pedi um amigo querido, Bráulio, para contar no blog o que ele achou.

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Para quem ficou curioso, o blog da cobertura compartilhada do TEIA 2007 já saiu do ar, mas meu texto juninho foi esse aqui:

Cabra macho

Com toda simplicidade que se espera de um típico nordestino, Suassuna começou sua aula justificando sua voz rouca e fraca, seu pigarro constante, seu traje típico. E por quase duas horas conduziu com leveza e bom humor uma conversa com um público encantado, revelando assim o quão espirituoso é esse nosso artista.

Acredito que Ariano tenha descoberto a fórmula ideal para construir a auto-estima do povo brasileiro. Saímos todos, no mínimo, orgulhosos de sermos um povo “alegre, musical e dançarino”. Mais do que dramaturgo e romancista, ele assumiu para si a função de estudar a cultura brasileira (já foi professor de História da Cultura Brasileira na UFPE), valorizá-la e apresentá-la para o seu povo.

“Se todo mundo exercesse suas atividades como Robinho joga futebol”, foi a primeira lição passada. O nosso futebol deve ser usado como exemplo para todas as outras formas típicas de cultura brasileira. Nossa cultura é rica em manifestações pequenas e peculiaridades de um povo que não perde sua alegria, apesar de todo o sofrimento que passa. E tudo isso já é digno de uma imensa admiração.

E não faltaram elogios a nós. À nossa humildade. Nossa unicidade. Nossa indisciplina. Nosso bom humor. Nossa alegria. Nossa cultura.

A nossa arte é mais do que um “episódio da cultura ocidental”. É a arte brasileira. Manifestação do povo.  Arte alegre,  colorida e simples.

Ariano criticou com ousadia e delicadeza a obre feita por Niemeyer. Uma obre sem cor, sem vida. É arte sim, mas não nos representa, segundo ele. Quem nos representa é Aleijadinho, Gabriel Joaquim dos Santos, J. Borges, Robinho, Daiane dos Santos. Mais do que representar o real, eles acrescentam uma pitada do que é brasileiro e assim fazem a nossa arte.

E finalizou afirmando que a cultura brasileira, em todas as suas manifestações, nasce com tipicidades locais mas torna-se universal por sua qualidade. E cada um de nós tem a responsabilidade de criá-la, mantê-la e propagá-la por todo o mundo, valorizando-a da forma que merece. A representação da cultura não precisa ser engajadamente política, mas pode sim representar o que pensa o seu autor.

Restou então a nós, espectadores, a esperança que ele reafirma: O Brasil ainda se desconhece, mas hoje já se assume como um país rico e profundo, com um povo capaz de fazê-lo acontecer.

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