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Os heróis de Mariana

Bombeiro coberto de lama trabalha no resgate de vítimas no distrito de Bento Rodrigues
Bombeiro coberto de lama trabalha no resgate de vítimas no distrito de Bento Rodrigues Ricardo Moraes/Reuters

Conheça os personagens que percorreram o distrito histórico de Bento Rodrigues para salvar os vizinhos em meio ao tsunami de lama provocado por rompimento de barragens de rejeitos da mineradora Samarco

Por Gabriela Garcia, de Mariana, Nicole Fusco e Eduardo Gonçalves

Passava das 16 horas quando um barulho ensurdecedor interrompeu, em 5 de novembro, a tranquila rotina do distrito de Bento Rodrigues, na cidade mineira de Mariana. Seguiram-se, então, uma nuvem de poeira e o revoar dos pássaros. Os moradores do vilarejo perceberam ali que havia algo errado. Em questão de minutos, gritos e buzinas tomaram as ruas: a onda de lama se aproximava. Só havia tempo para correr. Documentos, dinheiro, roupas, histórias – tudo ficou para trás. Bento Rodrigues foi riscado do mapa. Nem todos tiveram tempo de fugir. Dex pessoas morreram e pelo menos dezoito seguiam desaparecidas até sexta-feira. O desastre foi provocado pelo rompimento de duas barragens de rejeitos – resíduos resultantes da exploração do minério de ferro – da mineradora Samarco localizadas a cinco quilômetros do distrito. Sem que os telefones funcionassem, a solidariedade dos moradores do distrito evitou que a tragédia ceifasse ainda mais vidas.

A auxiliar de serviços gerais Paula Geralda Alves, de 36 anos, percorreu a cidade em sua moto de 50 cilindradas batendo de porta em porta para avisar os vizinhos. “Saí correndo igual a uma louca, gritando ‘a barragem rompeu, a barragem rompeu’”, conta. “Só quando eu cheguei lá em cima do morro olhei para baixo. Foi então que eu vi que tinha acabado tudo. Em momento algum eu olhei pra trás. Se eu olhasse, eu desistiria.”

Sandra Domertides Quintão, de 44 anos, dona de uma pousada centenária adquirida pelo pai, percebeu o desastre ao sair para a janela para ver o ônibus das 16 horas que passa diariamente na cidade rumo ao município vizinho de Santa Rita Durão. Corri para avisar a minha irmã e ela não acreditou porque a chuva de poeira é muito comum ali. Mas eu não duvidei, eu nunca duvidei. Eu sempre soube que isso iria acontecer”, relata. Ao lado da irmã Terezinha, ela despachou seu carro com quatro pessoas – entre elas sua filha Ana Amélia, de dois anos – e começou a buscar outros moradores. Elas subiram no carro de um amigo, depois de carregarem uma idosa que estava com o fêmur quebrado e não conseguia andar. Tentaram ainda chegar à casa de Thiago Damasceno, uma das crianças mortas na tragédia, mas o tsunami de lama de mais de 10 metros de altura chegou antes. Bento Rodrigues desapareceu do mapa em menos de 10 minutos.

A coisa mais valiosa era uma foto da minha mãe. Ela morreu da doença de chagas, quando eu tinha 9 meses. E aquela foto era a única lembrança que eu tinha dela”

Keila Vardele Sialho

O irmão de Sandra, Antônio, subiu em sua caminhonete com a mulher e recolheu quinze vizinhos. “Uma idosa foi levada em um carrinho de obra e voltou para buscar dinheiro. Eu a carreguei à força. Deixei mais de 50.000 reais embaixo do meu colchão. Mas nada disso importa agora”, conta. Antônio colecionava mais de 200 espécies distintas de aves em casa, entre calopsitas, canários belgas, mandarim, calafate e pintagol. Agora, em sua casa restam apenas dois pés de manga e um de condessa. Já Arnaldo Mariano Arcanjo, 31, foi listado como desaparecido na sexta-feira porque voltou diversas vezes ao povoado para buscar pessoas que ficaram presas na lama, como Priscila Monteiro Isabel, grávida, e seu filho de 2 anos. Passou a madrugada buscando salgadinhos e biscoitos em um bar inundado para compartilhar com as famílias que ficaram ilhadas.

Keila Vardele Sialho, de 31 anos, conta que preparava o jantar quando seu tio apareceu na porta gritando: “Corre que a barragem estourou”. O que se seguiu foi uma típica cena de filme-catástrofe. “Correria, gritos, choro em todos os cantos. Todo mundo correndo, idoso, criança… Olhava para trás e via aquele mundo de lama vindo de todos os lados, como se estivesse abraçando a gente. O barulho era ensurdecedor”. Ela saiu em disparada atrás dos dois filhos e da avó, de 85 anos, que mal conseguia andar. Encontrou no caminho o sogro, que circulava pelas ruas recolhendo as pessoas em sua caminhonete. Ele resgatou seus familiares e quem mais viu pela frente. “Fui puxando um monte de gente para cima do carro. Nossa preocupação era salvar todo mundo”. Junto com um ônibus metropolitano e um caminhão de mudanças, a caminhonete seguiu para o ponto mais alto do vilarejo. Atrás dos sobreviventes, um cenário desolador: uma avalanche de lama cobriu o vilarejo, arrastando árvores, rochas, postes, carros, caminhões, casas, animais e tudo o que havia pela frente.

Keila e mais sete mulheres do vilarejo trabalhavam com um produto típico da região, a geleia de pimenta biquinho. Elas atuavam em todas as etapas de produção, da plantação à comercialização do produto final. O empreendimento fazia parte dos projetos sociais da Samarco, responsável pelas barragens que se romperam. “O que a gente plantou foi tudo embora. Só sobrou o prédio da associação, que ficava na parte alta”. Como boa parte dos vizinhos, ela saiu de casa só com a roupa do corpo. Perdeu todos os pertences e documentos. “A coisa mais valiosa era uma foto da minha mãe. Ela morreu da doença de chagas, quando eu tinha 9 meses. E aquele foto era a única lembrança que eu tinha

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O troca-troca secreto das drogas que salvam vidas

Pedro Hamdan/Superinteressante(Pedro Hamdan/Superinteressante)

Alex*, 57, aposentado do Exército, esconde seis cartelas do medicamento Nexavar na caixa de correspondência. Cada pacote do remédio, ainda não distribuído pelo SUS, custa mais de R$ 7 mil e serve para tratar tumores no fígado. Como a doença se estabilizou, o ex-militar procura, na surdina, com a orientação da médica que o tratou, novos pacientes para repassar as sobras dos remédios. E logo alerta: “quando precisar conversar, é melhor não falar disso ao telefone. Tenho medo que esteja grampeado.”

Ivan Veloso esteve do outro lado. Precisava de remédios para tratar um câncer de próstata. Só que cada frasco custa-va R$ 4 mil. A cada mês, ele teria de desembolsar R$ 20 mil – quatro vezes mais do que a renda do empresário. “Soube [das doações de remédios] pelo chefe da minha irmã, que trabalha em Belo Horizonte, mas tive receio. É uma zona perigosa”, conta. A ajuda apareceu mais cedo do que imaginava: uma senhora que acabara de perder o marido para o mesmo câncer de Ivan enviou a ele, pelo correio, duas caixas do remédio.

Parece um mercado obscuro, ilícito, mas não é. Até porque nem é mercado. O ex-militar e a senhora viúva fazem parte de uma espécie de clube virtual de doação de remédios. Não pagaram ou cobraram nenhum centavo pelos medicamentos. Venceram batalhas de meses na Justiça para receber os remédios gratuitamente. E, quando o tratamento acabou, com finais felizes ou não, colocaram as sobras à disposição de outros pacientes. Encurtaram o caminho dessas pessoas: em vez de esperar por meses no Tribunal para começar o tratamento, tiveram a sorte de encontrar doadores. “Solicitei o medicamento ao grupo e, por coincidência divina, havia essa senhora doando o que restou do marido falecido”, se emociona Ivan.

O tal grupo é uma das páginas de doações de medicamentos do Facebook. Vera Buonomo criou a comunidade “É dando que se recebe” em 2011, quando uma amiga próxima descobriu que o único tratamento possível para um câncer de rim recém-descoberto seria o Sutent (da substância sunitib). Só tinha um problema: a caixa com 28 comprimidos custava R$ 24 mil. Vera não tinha dinheiro para custear o tratamento e a amiga não tinha tempo para esperar uma decisão judicial para ganhar os remédios. Vera apelou para as redes sociais: criou a página e pediu ajuda de outros usuários.

A amiga faleceu menos de um ano depois. Mas o burburinho e a popularidade da página fizeram Vera continuar. “Eu sou apenas uma interface para esses encontros. Em alguns casos me pedem sigilo e eu, então, coloco as pessoas em contato sem publicar na página”. Só exige deles duas regras: é proibida a venda (ainda que alguns tentem cobrar) e os pacientes devem apresentar receita médica. Quem recebeu remédios volta lá para retribuir a ajuda – qualquer ajuda, seja com novos remédios ou com a divulgação da página. Ou com auxílio jurídico gratuito para quem também precisa recorrer à Justiça para conseguir remédios caros. Assim, a rede funciona bem, numa retroalimentação sem fim.

No caminho da lei

Adalberto Enedino, o Dadá, recebeu apoio de um desses advogados. Diagnosticado com câncer nos rins e no pulmão, em fevereiro, precisava do mesmo remédio que Alex, o ex-militar, esconde hoje na caixa de correio. Não encontrou doadores, só uma família disposta a dar um bom desconto no medicamento – em vez de R$ 7 mil, a caixa custaria de R$ 1 mil a R$ 2,5 mil. Fez uma vaquinha com 24 amigos para começar logo o tratamento. Ainda assim ficaria pesado contar sempre com ajuda para bancar toda a despesa. A saída, então, foi recorrer à Justiça.

Com a ajuda da sobrinha e o auxílio do advogado, Dadá descobriu como percorrer esse caminho. A jornada começou com uma visita a um posto desaúde. Antes de qualquer coisa, é preciso ter o Cartão Nacional de Saúde. Carregou junto seus documentos, um laudo que justificava a necessidade do uso da medicação e uma receita médica. E levou toda a documentação até uma unidade de remédios de alto custo. Como era esperado, não conseguiu remédio nenhum. Pediu a cópia do protocolo do pedido e encaminhou tudo para o advogado.

 (Pedro Hamdan/Superinteressante)

É a partir daí que começa todo o processo jurídico. A primeira tentativa pode ser por meio do envio de uma carta e um requerimento para a Secretaria de Saúde. Até então dá para fazer tudo sem a ajuda de um advogado. Só tem um problema: geralmente esse pedido não funciona. O jeito, então, é entrar com uma ação contra o Estado e torcer pelo ganho de causa.

Dadá percorreu todos esses processos. Ele e outros milhares de pessoas. Entre janeiro de 2012 e dezembro de 2014, 2.862 pacientes de câncer no Brasil (3,5% do total desses enfermos) recorreram à Justiça. A chance deterem seus pedidos atendidos é grande. “Há um entendimento consolidado de que o paciente ganha sempre que tiver a receita médica. A maior parte das vezes que o Estado perde em primeira instância, ele não recorre porque há um entendimento consolidado da jurisprudência [do direito de acesso à vida]”, explica Daniel Wang, professor de saúde e direitos humanos da Universidade de Londres. Não à toa, os casos de vitória dos pacientes só cresceram nos últimos anos. No primeiro semestre de 2012, 426 pessoas conseguiram obter os medicamentos via ação judicial. Já na segunda metade de 2014, esse número aumentou em mais de 60%, atingindo 705 casos.

Mas até o medicamento chegar às mãos do paciente demora um tempo – em média, quatro meses. Dadá só conseguiu a primeira audiência em junho, três meses após entrar com a ação. Foi tarde demais. Uma semana antes da audiência, Dadá faleceu. Deixou como herança duas caixas fechadas do remédio, que foram doadas para outros dois pacientes – um mineiro e um gaúcho.

Rombo da esperança

A brecha na lei cai bem para os pacientes. Mas não para o governo. A bomba acaba estourando mais à frente: no planejamento das ações de saúde. De acordo com dados do Ministério da Saúde, o impacto dos gastos com a judicialização cresce em escala geométrica. Em 2015, a pasta desembolsou sete vezes mais grana para pagar esses tratamentos do que em 2010. Foram R$ 990 milhões, em quase 4 mil ações (em alguns casos, os remédios já são distribuídos pelo SUS, mas, por falta de estoque, os pacientes acionam a Justiça). Ou seja, cada um desses pacientes custou R$ 250 mil ao Estado.

É que comprar esses remédios toda vez que um novo paciente pede sai muito caro. Segundo um levantamento feito em 2013, os preços podem ser até três vezes mais caros quando comprados em pequena escala. E é assim que os grandes laboratórios lucram. A Roche, fabricante do Trastuzumabe, medicamento para câncer de mama, foi acusada pelo Ministério Público Federal de cobrar valores abusivos das secretarias estaduais de saúde quando o pedido era feito via Justiça. Uma caixa do remédio custava até 300% a mais nesses casos.

E nem é só isso: laboratórios se aproveitam para vender todo o seu repertório de produtos, mesmo se ele não funcionar tão bem assim. “O médico receita o que está convencido de ser o melhor. E, lamentavelmente, muitas vezes o que ele acha é o que as empresas farmacêuticas acham, e o que o marketing delas acha”, diz Reinaldo Guimarães, médico e vice-presidente da Associação Brasileira de Química Fina e Biotecnologia. Ainda que a lei exija que os casos de judicialização valham apenas para drogas com custo-eficiência comprovada, ela é sistematicamente ignorada – e, segundo Guimarães, não apenas os quimioterápicos entram na roda: pacientes vencem ações até para receber fraldas geriátricas.

A confusão toda é originada no próprio governo. Quem cuida da aprovação de novos medicamentos é a Comissão Nacional de Incorporação deTecnologias no SUS (Conitec). Inspirada no sistema britânico, a comissão precisa definir uma lista de remédios oferecidos gratuitamente pelo governo. Só que no exterior as coisas funcionam melhor. O órgão de lá avalia a relação custo-benefício dos medicamentos pela demanda do sistema público e pela indústria farmacêutica. E não permite que remédios muito caros e pouco eficientes sejam distribuídos a torto e a direito. O cenário aqui é bem diferente: o Ministério da Saúde mal sabe quais quimioterápicos são mais pedidos em vias judiciais. E esses dados deveriam ajudar a pautar as avaliações sobre incorporação de novos remédios – assim, o governo poderia comprá-los em larga escala, com preços bem menores.

Isso sem contar a lentidão e falta de critérios da Conitec. Um estudo da Interfarma mostra que, recentemente, cinco solicitações de novas drogas foram negadas pela comissão – e quatro delas já foram aprovadas nos Estados Unidos e em vários países da Europa, Ásia e América Latina para tratamento de câncer de cólon, pulmão e rim. Para se ter ideia, o Trastuzumabe, aprovado em 1998 nos Estados Unidos, chegou ao SUS apenas em 2012. “E ainda com indicação restrita, aprovado apenas para tratamento coadjuvante, depois da cirurgia. Não está disponível nem para as pacientes com a doença metástica”, explica Felipe Ades, oncologista do Hospital Albert Einstein. O Nexavar, de Dadá e Alex, não foi sequer analisado pela Conitec – o mais surpreendente é que oncologistas do mundo todo o veem como o futuro do tratamento do câncer, por atacar apenas as células cancerígenas e preservar as saudáveis.

 (Pedro Hamdan/Superinteressante)

Jogo da vida

É da falta de esperança com o SUS e do desespero dos pacientes que nascem os clubes de trocas de medicamentos. E, graças a eles, Ivan Veloso colheu boas notícias nos exames: 60% de redução dos lifonodos metásticos e do PSA, substância que indica a presença do câncer de próstata. Mas, até nas derrotas, o grupo ganha força. Parentes enlutados encontram nas doações um pouco de consolo. Ester del Vecchio, por exemplo, doou caixas de Temodal, um remédio para câncer no cérebro, após a morte do sogro. Nunca mais deixou de colaborar: agora organiza as trocas. “Às vezes recebo quatro caixas em um dia só e preciso decidir para quem doar. É como decidir quem vai viver. Faço um papel de Estado que não é meu”, conta. Eles não são de fato o Estado – e até caminham um pouco pela ilegalidade, já que as sobras dos remédios pagos pelo governo deveriam ser devolvidas.

Mas esses doadores clandestinos não estão sozinhos. Profissionais de saúde também tentam compensar as faltas do governo. A médica de Alex o orientou a guardar as caixas que sobraram. É ela quem indica a ele pacientes para receber as doações. O Banco de Remédios, um site online, presta um serviço parecido: organiza e distribui as doações entre os pacientes. Nesse caso, há um preço: R$ 20 por mês para ter o cadastro. Quase nada perto dos remédios de R$ 10 mil ou R$ 20 mil. Ou do desespero à espera da Justiça e dos medicamentos, que pelo SUS dificilmente chegarão.

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Direita pode tirar Dilma do cargo, mas não solucionará a crise, diz Mujica

Pablo La Rosa/Folhapress
*** ESPECIAL MUNDO*** MONTEVIDEO, URUGUAI, 25.11.2014, Presidente do Uruguai José Mujica concede entrevista a jornalista da Folha em sua residencia. Foto Pablo La Rosa / Folhapress *** MATERIAL EXCLUSIVO PARA FOLHA***
José Mujica concede entrevista a jornalista da Folha em sua residencia
O ex-presidente uruguaio José “Pepe” Mujica afirmou nesta quinta-feira (21) que a direita não vai solucionar a crise no Brasil tirando a presidente Dilma Rousseff.”A direita pode pensar que magicamente, ao tirar Dilma, consertará a crise. Não podem. Pode consertar a crise em um país sem conciliar o capital com o trabalho? Não, não pode”, disse o uruguaio em Ouro Preto, onde foi homenageado com o Grande Colar, grau máximo da Medalha da Inconfidência.Ele afirmou ainda que há hoje no Brasil uma ilusão de que a presidente Dilma seria a responsável pela retração econômica quando, na verdade, crises fazem parte do capitalismo e, portanto, são sistêmicas.

“O Brasil se encontra hoje no ponto mais baixo da crise do próprio capitalismo. Este é um problema do sistema, mas quando há dor na sociedade, precisam encontrar em quem colocar a culpa. Vai passar um tempo e o brasileiro vai perceber que nada é tão mau nem tão bom.”

Mujica também foi questionado se o impeachment da petista pode ser considerado golpe. “Há um ditado popular no Uruguai que diz: não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem.”

Ele defendeu ainda o voto popular e disse que ele jamais deve ser esvaziado. “As pessoas se equivocam, mas ainda assim são elas as que têm o direito de se equivocar [ao votar] porque são elas as que pagam impostos”, afirmou ele, frisando que ele não abordaria o aspecto institucional ou legal do Brasil.

‘PACIFICAÇÃO’

Sem citar o impeachment de Dilma, o governador Fernando Pimentel (PT) também ressaltou a supremacia do voto livre e popular frente às decisões do parlamento, dos tribunais e das manifestações de rua. “A única pacificação real é a que vem do voto popular, do voto livre e direto.”

Para ele, “os parlamentos representam, sim, os eleitores e têm papel fundamental, como fundamental também é o papel dos tribunais ao promoverem julgamentos no estrito limite da lei, desde que assegurados e respeitados todos os direitos constitucionais e universais”.

“Mas nada, repito nada, supera o valor absoluto da supremacia do voto popular. É dele, e somente dele, que advém a legitimidade dos Poderes.”

EVENTO FECHADO

Tradicional evento realizado desde 1952, a Medalha da Inconfidência foi restrita a convidados pela primeira vez desde a posse do governador petista.

Depois criticar os governos Aécio Neves (2003-10) e Antonio Anastasia (2010-14), que fechava o evento, em 2015, a Medalha da Inconfidência foi aberta ao público.

Neste ano, o governo alegou motivos de segurança para restringir o evento. Foram convidados movimentos sindicais, como CUT, e o MST (Movimento os Trabalhadores Sem Terra), que levaram faixas de apoio ao governo e com os dizeres “Cunha e Temer: traidores do Brasil”.

Também durante a cerimônia foi considerada a abertura da Marcha pela Democracia, organizada pela Frente Brasil Popular, de apoio ao governo Dilma.

O movimento de resistência ao processo de impeachment fará um ato político em Mariana, passará por outros municípios mineiros e será encerrada em Belo Horizonte na próxima terça-feira (26).

CONFUSÃO

Nas ruas laterais à praça Tiradentes, onde acontecia o evento, servidores da Segurança Pública de Minas Gerais e representantes de entidades de classe –como a Aspra (Associação dos Praças Policiais e Bombeiros de Minas Gerais), Ascobom (Associação dos Servidores do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais) e Centro Social dos Cabos e Soldados da Polícia Militar– foram impedidos pela tropa de choque da PM de entrar no evento.

Eles organizaram uma manifestação contrária ao governo petista que, em janeiro deste ano, adotou o escalonamento dos salários dos servidores que recebem mais de R$ 3.000 devido à crise financeira do Estado. Desde a decisão do governo pelo parcelamento, as manifestações da PM têm sido constantes.

Os manifestantes foram recebidos pela tropa de choque com spray de pimenta e, segundo eles, bombas de gás lacrimogêneo. A PM negou o uso do gás.

De acordo com o capitão Flávio Santiago, o uso do spray de pimenta foi direcionado apenas a pessoas que tenham tentado entrar à força ou sem credencial –já que o evento foi fechado ao público.