Devaneios

 

Enquanto leio o livro “Cartas a um jovem terapeuta” – Contardo Calligaris, na posição de curiosa, afinal de contas meu campo é o jornalismo, sou levada a repensar, mais uma vez, a minha vida. Conheço melhor meus defeitos que minhas qualidades. Sei muito bem, por exemplo, da impaciência, da ansiedade, da grosseria que muitas vezes ultrapassa o limite tênue da sinceridade ou do humor, do ciúme, das explosões, sei que levo meus princípios muito a sério e sei também que me cobro muito. Disso, o que mais me surpreende é a capacidade que tenho de ser muito mais compreensível e flexível com os outros do que comigo. Fico encantada com a complexidade e a dramaticidade da vida de cada um, as confusões, as coincidências, os milhares de porquês por trás de tudo. Gosto de manter a mente livre para todas as possibilidades que o ser humano é capaz de viver. Nas suas cartas, Calligaris me deixa em dúvida por causa dessa paixão, por essa vontade imensa de ouvir, de me envolver com a história de todo mundo, de soltar sempre uma pergunta no meio da conversa: “Como seus pais se conheceram?” e me apaixonar. Um jornalista não deveria ser assim.

A capacidade de ouvir histórias, muitas vezes atrapalhada pela timidez ou por desconhecer os limites éticos e morais de cada um, é uma das minhas características que mais me encanta e que, também direciona minhas qualidades. Sinto orgulho de ser a pessoa que muitos procuram porque confiam, de ser querida por ter sempre um sorriso largo quando falo “bom dia” a quem passe na rua e, principalmente, por ser perspicaz: preciso de poucos sinais para entender o muito que acontece em um lugar. Verdade que ouvir histórias alheias mata um pouco do meu desejo de viver outras vidas, de ver todas as coisas do mundo.

Meu pai sempre me falou “Se você quer mesmo isso, você vai fazer. Se não faz, por medo, vergonha ou qualquer coisa, é porque não quer tanto assim”. Consigo lembrar do suor frio, do sangue correndo e do desafio que tinha que encarar cada vez que ouvia isso. Nem se fosse para tomar coragem e pedir para participar da brincadeira das crianças desconhecidas do parque – onde era sempre possível ouvir um não. Essa frase virou o amor e o ódio da minha vida. Amor porque não me deixa desistir. E ódio porque não me deixa desistir, nem quando essa decisão parece necessária. Nesse conflito, Calligaris escreve uma carta sobre os limites de cada um – que, na maioria das vezes, coincidem com os limites universais.

Por muito tempo pensei que meu limite fosse a mentira, mas hoje vejo que não. Ainda que a verdade seja uma virtude supervalorizada por mim, vejo que mentir, muitas vezes, é necessário para manter o nosso íntimo preservado, a nossa privacidade, manter a legitimidade dos nossos desejos, como já disse Kundera. Eu minto. Vejo com mais clareza dois limites. Vejo que não consigo entender a crueldade, ou pessoas que agem motivadas por ela. Entendo o nosso direito humano de sermos cruéis muitas vezes, mas não entendo quando isso ganha força para ser colocado em prática. Agir para machucar alguém, para atingir, manter-se cego por um motivo maior. Penso em egoísmo, em desconsiderar o outro. Lembro de uma frase do Carpinejar, pessoa que admiro muito, que diz: “Os homens perigosos são os frágeis” e penso também em manipulação. Mas, não escondo. Meu receio é mesmo em relação às pessoas que não lutam, não se manifestam, fazem da vida um rabisco, sem muita vontade de arriscar uma cor.

Este ano inovamos no formato do amigo oculto das meninas da faculdade e tivemos que projetar o futuro das nossas sorteadas. Foi ali que ouvi dizer sobre mim, entre outras coisas: “Não sei com quem vai ser, mas tenho certeza que ela vai ser a primeira a casar”. Surpresa, perguntei o porquê e ouvi minha amiga responder, simples assim: “Porque você é muito apaixonada”. Entendi que ser uma pessoa apaixonada também pode ser o meu amor e o meu ódio, ou todas as milhares de coisa que existem entre dois lados. Amor porque é esse jeito que me faz ver a vida mais bonita, de me emocionar com pouco, querer me jogar e querer sempre pulsar. Ódio porque quero sempre que as pessoas que amo vejam o mundo assim, quero cuidar, quero ensinar o que sei, quero viver por elas e isso muitas vezes ultrapassa o respeito pela individualidade alheia. Ódio também porque em um mundo onde as pessoas preferem o orgulho ou o medo a tentar ir mais além, eu quase pago de Mallu Magalhães com minhas ideias sobre o amor.

Talvez você tenha razão. Não quando diz me conhecer bem, o que é mentira. Mas sobre me posicionar mais em relação ao que repudio ou admiro. Talvez, na verdade, eu tenha aprendido a respeitar mais a minha história. Talvez agora eu veja com quanto desejo a construí e como isso colaborou para criar essa personagem e protagonista. Talvez tenha certeza de que ela merece ser lida não com o descaso de quem lê um texto do Jornal do Ônibus, em meio ao trânsito das seis. Mas como quem quer reservar uma tarde ensolarada de sábado em um sítio, colocar os pés para cima, e vivê-la em minha companhia.

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