Medianeras

No dia ele vestia uma camisa listrada – na horizontal – vermelha-e-branca. Ridícula. Talvez a última limpa que havia sobrado no armário. Essas coisas acontecem quando não se vive mais com os pais. Ela, do alto do prédio, o avistou. Desceu oito andares de elevador. Ela tinha fobia. Olhou pra ele como se não houvesse nenhuma das centenas de pessoas que passavam pela Santa Fé lotada em horário de almoço. Só havia ele. E a camisa horrorosa. Ela nunca havia encontrado o Wally na cidade. Na praia, floresta, deserto, tudo isso não havia sido obstáculo. Mas o Wally em meio a milhares de pessoas indo e vindo todos os dias na selva de pedra era impossível.

O amor tem dessas coisas. Quis que eles morassem ali, um de frente ao outro. E quis também que as pequenas coisas do destino tivessem impedido de que eles se conhecem até então.

O amor tem dessas coisas. Espera um momento certo pra mostrar toda a sua beleza.

Eu me lembro da vez em que você foi vestida de Wally pra Faculdade. Primeiro período, dezessete anos, recém saída do universo limitado da escola. A blusa virou motivo de piada. Não pra mim.

Não sei se foi exatamente ali, mas senti que do meu lado estava a minha Wally. Quem eu havia procurado em alguns cantos e jamais encontrado.

O amor tem dessas coisas. Quis que o meu estivesse a quatro quilômetros e meio de distância de mim. Quis que escolhesse o mesmo curso. Quis que tivesse um sorriso que me desarmava.

Quis.

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