Sabor caseiro

Ilustração retirada daqui.  

Nos seis meses que morei na Espanha, viajei muito. (Mais do que estudei, certamente). Na Espanha, minha paixão, conheci: Sevilha, Granada, Córdoba, Cádiz, Málaga, Maiorca, Madri, Toledo, Barcelona, Santiago de Compostela, Oviedo, San Sebastian, Bilbao, Pamplona e mais alguns que esqueci. Na França, Paris. Na Inglaterra, Londres. Na Itália, Napolis, Capri, Roma, Florença, Pisa, Siena, Bolonha. No Marrocos, Marrakech, Fez, Essaouira, Ouarzazate. Sem contar que, entre todas as viagens por terra, algumas cidades incríveis me surpreenderam no caminho.

De tudo isso, eu aprendi muito sobre viajar, economizar dinheiro, pensar roteiros legais, escolher um bom hostel para além da foto. Mas, certamente, o que aprendi e quero levar para vida é: ser recebido por alguém é a melhor viagem que existe.

Granada foi uma das melhores viagens e não só por ser uma das cidades mais bonitas do mundo – ela é, sim. Mas porque, de surpresa, um cabeludão foi nos buscar na estação ferroviária enquanto levávamos uma compra de supermercado tamanho “família grande”. Ele foi nos levar em casa, carregando pacotes de papel higiênico. Renato era amigo-de-amigos  que viviam em Granada (e estavam viajando naquela época) e era o encarregado de nos entregar as chaves do apartamento. De dono da chave a guia mais engraçado das minhas andanças, foi um pulo.  Depois dele, a viagem a Granada  é, sem dúvida, uma das melhores lembranças que tenho guardada.

Lembro ainda de chegar em Bolonha, depois de 10 dias mochileando pela Itália de baixo, e sentir um prazer inenarrável. Minha amiga de desde miloitocentosebolinhas estava de intercâmbio lá e, além de mostrar uma Itália que eu nunca conheceria não fosse ela e um livro gigante sobre o país, me deu uma cama e um chuveiro com gosto de casa quando o cansaço apertou. Conhecer a cidade onde um amigo mora e que ele quer te mostrar, não tem preço. A Mari não podia conter a  ansiedade de nos mostrar o melhor restaurante da cidade, a biblioteca que tinha o chão de vidro e mostrava séculos de história em ruínas no solo, as “torres gêmeas” e a história das famílias tradicionais de lá, a festa da noite – que eu escolhi!.

Madri conheci sob o olhar apaixonado de outra amiga que vivia lá e ainda hoje não sai da minha cabeça os “Olha que lindo, Bi!”, a cada esquina que nos deparávamos com algum prédio antigo maravilhoso. A Rê é doce, e minhas lembranças de Madri são igualmente suaves. Barcelona foi um pouco diferente, mas igualmente incrível. No meu voo Santander-BCN reconheci, pelo passaporte, uma brasileira e me perguntei o que uma brasileira estaria fazendo naquela cidade meio sem graça. Esse momento inicial de reconhecimento, de ver ali perto, em um desconhecido, um pedaço de casa, despertou sentimentos que guardo com saudade. Briana estava morando em Barcelona para um mestrado em biologia marinha e foi a Santander visitar uma amiga – dito e feito, ela amou Santander, que eu, sozinha por lá, detestei. Pronto, dali saí eu com uma pessoa querida e um bloquinho de dicas que fariam meus dias seguintes muito melhores, em Barcelona. Às vezes é difícil ignorar essas coincidências e como pessoas especiais parecem brotar por perto.

No voo Sevilla-Marrakech não foi diferente. Quando voltei de Londres com meu amigo, vimos um casal de brasileiros na nossa frente. Ele, espanhol, me incentivava a cumprimentá-los. Eu, tímida, não o fiz. Fiquei incomodada mais duas semanas por ter sido tão boba. Duas semanas depois fomos viajar mais uma vez, meu amigo e eu, ao Marrocos. Quando sentamos na fila de três poltronas, ela. A mesma menina. Ao meu lado. Monise ela chamava e eu não pude me conter: falei de uma vez que sabia que ela era brasileira, que tinha ido a Londres, que eu queria conversar com ela e achar mais um pouquinho daquele Brasil mundano, saber o que ela estava fazendo ali e porque diabos tinha desejos de fazer as mesmas viagens que eu. Mais do que perguntas que preencheram nosso tempo de voo, Monise me contou mais. Ela estudou árabe nos primeiros períodos da faculdade de letras da USP e ir ao Marrocos era realizar um sonho de tempos. Enquanto o namorado a esperava no aeroporto africano, ela me contava: Gabi, se quiser falar “não”, fala lá. Com vontade: lá, lá, lá. Ela me ensinou ainda um par de palavras úteis como as de um manual de sobrevivência. Mas só consigo me lembrar dela dizer: se quiser falar pêssego, (é lindo!), fala muxi-muxi. Muxi-muxi, tá bom? Com a boquinha assim: muxi-muxi. Por qual motivo eu encontraria pêssego no Marrocos eu não sei, nem procurei –  é uma fruta que eu sempre detestei por ser “engana-sobremesa”, mas é uma palavra que eu nunca esqueci.

Em Pamplona, vivi dias de carnaval brasileiro. A festa de San Fermín, a segunda maior festa europeia, realizou sonhos antigos e ideais de diversão. Mas não seria a mesma se eu não tivesse encontrado ali amigos, que me acolheram também depois de dias mochileando. Eu era a princesa daquela casa suja, cheia de homens, que só sabiam beber e fumar maconha. Eu senti que ter uma mulher ali era especial para eles. Era ter um olhar cuidadoso, alguém que ouvisse as histórias, alguém que compreendesse, sem julgamentos, a saudade de casa. Meus meninos cozinharam almoços especiais nos dias de ressaca eterna, fizeram creme de milho que eu tanto amo, estenderam as roupas que esqueci na máquina de lavar depois de uma noite de borrachera. Sebastian, o único estrangeiro daquela família brasileira montada às pressas, guarda até hoje o recado de despedida que deixei na geladeira.

Nas memórias de Londres existe uma que me toca em especial. Viajei com um amigo que já tinha vivido ali e estava realmente disposto a me apresentar a cidade da forma mais mágica possível. É dessa forma que eu lembro o dia em que saí de uma estação de metrô e ele tapou meus olhos: “¿ estás preparada?”. Abri os olhos e estava ali, embaixo do Big Ben, de frente para um tanto de sonhos que alimentei por anos. A imagem de pessoas cultas, dos melhores jornalistas, mulheres elegantes vestidas com trench coat cor caramelo e uma vida que esperei com muita vontade poder presenciar um dia. Em Londres também fiquei na casa de uma amiga – ou prima do meu amigo, que virou minha amiga. Não tinha preço acordar e olhar pela janela aqueles ônibus vermelhos, as ruas invertidas, os negros, indianos, árabes, brasileiros, espanhóis, enquanto tomávamos café da manhã com gosto de casa.

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