Se vê

Meu olhar sobre Sevilha é viciado. Quando cheguei ali, ela já era minha. Não me causou grande impacto descer do tranvia e me deparar com a maior catedral gótica do mundo. Andava pelas ruas como se conhecesse bem aqueles caminhos que são percorridos desde o século XV e olhe lá. Contava às minhas visitas curiosidades que tinha ouvido outrora , sem sequer checar a credibilidade. Ficar pretensiosamente perdida nas ruas da juderia era quase natural.

Descer no centro da cidade naquele fim de julho bateu diferente. Não foi indigesto, mas, sim, prazeroso. Depois de conhecer todos os mitos que me atraíam – Paris, Roma, Barcelona – eu pude abrir meus olhos com simplicidade para aquelas cores. Para aquela gente que fala gritando. Para aquela expectativa de encontrar, em cada esquina, alguém que cante em rodas trechos de flamenco como o Almodóvar me fez acreditar. Dessa vez, eu voltei por saudade e meu coração viu, enfim, o que eu procurei o tempo todo. Querer parar no tempo é passar por ali.

Andar pela Sevilha turística pede passos lentos na Avenida de la Constitución. Ouvidos atentos na Catedral e atenção especial para todos os becos, que revelam saídas incríveis. O Archivo de Índias, que guarda toda nossa história em documentos sobre a “descoberta” da América. Foi daquele rio que corre ali, paralelo, que Colombo se despediu pra peitar a nova aventura. É cruzar com as carruagens que levam turistas enfeitiçados – que já se esqueceram dos 50 euros que tiveram que investir no passeio de meia hora em meio a la crisis. O Real Alcázar e a maestria da arquitetura árabe que hoje se encaixa harmoniosamente no mesmo quarteirão da igreja gótica. [Eles pareciam saber conviver melhor quando o mundo era menos evoluído]. As ruas tortas e estrategicamente estreitas, que escondem o sol e protegem dos invasores.

É sair de tapas pelo Santa Cruz, comer um churros típico na beira do Guadalquivir e atravessar a ponte para conhecer a Triana – que, por favor, não é Sevilha! – e se deixar levar pela San Justino. De lá, ou de qualquer outro lugar dessa antiga Betis, o mais importante é perceber: a Giralda nunca escapa do seu olhar.

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Todos esses sentimentos refloresceram quando meu amigo Victor me apresentou, aqui, a última entrevista do poeta João Cabral de Melo Neto – que também viveu e se apaixonou por Sevilha.

Separei alguns trechos para compartilhar:

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BA: E a Sevilha desse seu tempo? Você costumava dizer que ela era uma cidade ajustada ao corpo humano, à dimensão do humano.

JC: É porque é uma cidade estreitinha, cidade antiga, que não se destruiu para ser uma cidade grande. Só tem uma parte, você chegando de Jerez de La Frontera, entrando pela porta de Jerez, você tem a Sevilha monumental, que é onde está a catedral, onde está a Giralda. A Giralda é uma torre moura, da mesquita moura, que os cristãos conservaram como a torre da catedral. Você aí tem uma Sevilha monumental. Mas logo depois da Plaza Nueva, a Sevilha monumental desaparece e a Sevilha popular começa.

Luis Antonio (LA): Quando você pensa em Sevilha, qual é a imagem que vem à cabeça?

JC: Acho que é a calle Sierpes, a rua principal. Chama-se Sierpes por isso, porque ela não é reta.

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JC: É, eles têm uma rivalidade com Córdoba. Mas ao mesmo tempo reconheceram Manolete, que era cordobês. Foram eles que consagraram Manolete, porque a praça de touros de Sevilha é a mais importante da Espanha. As de Barcelona e Madri são comercialmente melhores, mas a que consagra mesmo o toureiro é a praça de Sevilha, é o público de Sevilha. Tanto em Madri como em Barcelona tem muito público, mas não é o verdadeiro connaisseur, não é o verdadeiro aficionado, o sujeito que entende tudo. Em Sevilha, todo mundo entende de touros e todo mundo vai à plaza. Eles vão para ver os consagrados. É muito mais que ser consagrado em Madri.

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BA: Os versos do poema “Coisas de cabeceira, Sevilha” têm muito a ver com  toureiros e bailadoras, não?

JC: Correto. E mesmo com o homem da rua. Uma vez eu estava num lugar de flamenco com uma sevilhana, e tinha um sujeito cantando flamenco. Eu virei para ela e perguntei: “Te gusta este cantador?”. E ela disse: “No, no expone”. Quer dizer, não se expõe, não faz no máximo. O sevilhano quer sempre a coisa feita no máximo.

BA: No extremo?

JC: No extremo. Fazer no extremo, onde o risco começa, não é?

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