Só mesmo com os alviverdes

No dia 25 de abril reencontro América.

Volto três anos atrás e lembro a última partida que presenciei, quando o tradicional time mineiro voltou à segunda divisão, em um jogo contra o Asa de Arapiraca, Alagoas.

1912

“Vai embora!”; “Vai embora!”, cantavam, vibrando, em coroO eco das vozes fazia a rua tremer. Em meio às casas recatadas do lugar, como se em bairro de cidade interiorana, era o que eu ouvia ao chegar atrasada àquele que parecia o jogo dos sonhos de um torcedor. Pouco tempo depois, entendi o porquê do coro. O zagueiro do time adversário tinha sido expulso, e surgira a oportunidade de pôr para fora um grito contido, de quem espera um gol, ou, ao menos, uma reação. E há mais de 60 minutos. Eu, que já tinha ido a outro jogo da equipe, me surpreendi com tamanha explosão. A torcida, por vezes, me parecera tranquila, como quem não cede a manifestações terrenas, nem perde tempo em desdenhar do inimigo.

Mas naquele dia, não. Não, não e não. Percebia que, ali, muitos pais queriam provar a seus filhos, pequenos e confusos, que valia a pena torcer pelo América. Ainda que o time estivesse longe da série B há cinco anos; ainda que não tivesse títulos há oito; ainda que seus jogos não fossem mais transmitidos na TV; ainda que não jogasse mais às tradicionais quartas e domingos. Ainda, aliás, que tampouco jogasse. Apesar de tudo, valia à pena. Havia um glamour diferente torcer para aquele time.

Até quem não torcia entrava no clima. Nos “bastidores” do jogo, médicos do SAMU e policiais militares esbarravam-se em busca de uma brecha, uma gretinha em meio à muralha de pessoas onde pudessem assistir àquele acontecimento. Os policiais pareciam surpresos com os dez mil oitocentos e poucos torcedores que transbordavam do estádio. Assustados ou temerosos, jamais. “O América é o time da tradicional família mineira”, disse um, ironicamente. Ainda que o número de torcedores fosse cinco vezes maior do que a média dos demais jogos, somente duas ocorrências registradas: tentativa de roubo e uso de drogas. Apesar da simplicidade das ilegalidades, deslocaram-se, para o local, 150 policiais e 10 viaturas, em respeito à grande proporção da torcida.

Já para os médicos, a preocupação era outra: “O estádio é mais íngreme e o tipo de público é diferente”. A diferença, de fato, estava na idade dos torcedores, notável pelo tipo de atendimento: controle de pressão, hipoglicemia grave de um senhor com diabetes. No jogo anterior, América x Brasil de Pelotas houve, inclusive, um princípio de enfarte. Emoção demais. Na final, ainda um terceiro atendimento, por uso de drogas (analgésicas?! não sei).

1957

Ali os torcedores sentem-se em casa. Aliás, eles têm uma casa. De todos, e para todos. Talvez não seja acolchoada – que o diga o piso de “cimento-que-arranha”. Mas é ali que as famílias reúnem-se sem preocupação, para uma tarde ensolarada de domingo; e que os avós saem de casa com segurança; e que as crianças brincam pra lá e pra cá; e que os vendedores de amendoim jogam o troco à distância para o remetente. Dia de casa cheia, no entanto, significa alegria, mas, não necessariamente, comilança. Vani, a senhora do famoso bolinho de feijão, por exemplo, não para de se queixar da baixa procura. A emoção e a concentração talvez expliquem a falta de fome, de sede. Com um público 5 vezes maior, as vendas mal aumentaram 20%.

A exaltação a um time passado junta-se à felicidade do retorno à série B. Não só isso. Junta-se a felicidade ao samba no boteco da esquina, à dona do restaurante, ao vendedor de algodão doce e de livros infantis – só mesmo naquele estádio é possível ver tal vendedor após um jogo caloroso –, ao ambulante que se fantasiou de garçom para vender uísque; à senhora que, para acompanhar as duas filhas, pintou o rosto e colocou duas orelhas de coelhinho na cabeça, como as ilustres gostosas da Playboy. E, quem diria, aos torcedores do Asa, que foram comemorar com os americanos a escalada para a série B. “Asão, Coelhão, amizade de irmão”, vibravam aqueles torcedores, até então desconhecidos, por vezes inimigos.

2009

Só mesmo com os alviverdes

De fato, há coisas que só acontecem com o alviverde mineiro. Coisas que, na verdade, fazem do América um time pequeno, mas sem ofuscar seu glamour. Só o América teve uma torcida formada exclusivamente por um casal, que durou o mesmo tempo que o relacionamento. Só o América sorteou empregos através de bens de seus conselheiros, com o intuito de atrair torcedores para o campo. E só um americano diz: “Hoje quero chegar mais cedo para o jogo e comprar ingresso na mão de cambista, nunca tive essa chance na vida”.

E continuamos: só um aspirante a cambista do América deixa a malandragem de lado para contar para uma torcedora que ainda existem ingressos na bilheteria – mais baratos e vendidos no cartão. E só um americano é reconhecido, em meio a uma folia pré-carvanalesca paulista, com a seguinte interjeição: “Não acredito! Uma torcedora do América! Tentei incessantemente achar torcedores do Coelho com a camisa do time na Praça Sete, em BH, e não achei ninguém!”. Só com o América…

***

Segredo pós-post

Em um cantinho do estádio lotado, um grupo de torcedores se reunia  próximo ao campo – juntos e isolados – e embalava as canções daquele domingo à tarde. Não existem muitos negros na torcida alviverde, o que provocou minha surpresa. “Olha, então vocês formaram a charanga do América?”, perguntei. E em sigilo, quase como em um sussurro ouvi daqueles olhos espantados, que acreditavam que nunca seriam pegos: “somos a charanga do Galo” – contratados pela diretoria do América para animar a festa.

Mas não conta para ninguém não!

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