Sobre bocas e trombones

 

Certa manhã intranquila me meti em um rebuliço político por pura ingenuidade. Reproduzi na internet uma matéria que afirmava, de forma equivocada, que o grupo de pessoas insatisfeitas com o atual prefeito de Belo Horizonte, conhecido como Fora Lacerda, teria definido um representante político para eleições municipais deste ano. O reflexo disso, gigante, tomou conta dos caminhos infinitos da rede. Iniciada com uma edição confusa e informações truncadas, corrigidas em seguida, aquela repercussão bagunçada e não linear da notícia me fez perceber que aquela era, no fundo, uma briga com a imprensa tradicional, como um todo, que desconhece e ignora as manifestações de insatisfação da sociedade. A situação me levou a refletir quantas outras causas interessantes não se perdem em meio a grandes mobilizações de momento.

No ano passado acompanhei, in loco, o explodir da Revolución Española, com olhar admirado. Filha da Revolução Árabe e mãe de inúmeros movimentos seguintes de ocupação das ruas, praças e avenidas de todo o mundo como sinal de insatisfação, a Revolución me encantou por uma organização fantástica: acampamentos com bibliotecas, lanches coletivos, tradutores voluntários para agregar diferentes nacionalidades e wifi gratuito para dar força ao movimento na rede. Comentei com orgulho dos jovens da minha cidade, que já há mais tempo transformavam uma praça pública em praia, durante o verão, como sinal de insatisfação com um decreto da prefeitura que proibia a realização de eventos nos espaços públicos, exceto mediante ao pagamento de pequenas fortunas.

No entanto, passado um tempo, depois de despertar a insatisfação de tantas pessoas, questionei como o movimento espanhol seguiria. Insatisfeitos sim, indignados sim, mas quais eram as soluções? Qual era a luta? E contra quem? Gritamos nas ruas: “não nos representam”. Mas se o modelo político vigente era de representação, o que seria feito? A resposta veio em seguida: os conservadores conquistaram maioria absoluta nas eleições ‘municipais’ e na ‘nacional’, como não acontecia há anos. O movimento de uma parcela intelectualizada e insatisfeita não se traduziu nas urnas e o medo dos conservadores ganhou força em meio à maré de instabilidade.

Por aqui, entendo a necessidade de se criar um algoz e de se humanizar uma causa – porque heróis e vilões engajam. Mas questiono a falta da problematização de uma questão muito maior: as nossas queixas não estão mudando com a mudança de gestor. Eu votei no Márcio Lacerda no segundo turno de 2008 por medo de que ganhasse o ‘pior’, Leonardo Quintão, assim como sei que muitas pessoas do Fora Lacerda também o fizeram. Agora vejo esse caminho se abrir novamente sem perspectivas de mudança, porque não há quem nos represente. E se o modelo de democracia prevê essa representação, há uma falha aqui. O que digo, portanto, é da preocupação de que o problema não se reduza ao prefeito, mas ao que está sendo feito da representação política. O prefeito é péssimo sim. Mas há um problema estrutural muito maior que não pode ser esvaziado.

Nesse caso específico de ontem, percebi que mais pessoas se interessaram pelo movimento, que a ideologia do grupo foi fortalecida e confirmada, que mais pessoas compartilharam e que, por fim, o movimento apareceu na página 3 do jornal, ainda que às avessas – o que não acontece quase nunca. Então, por que não aproveitar esse boom de interesse e problematizar a importância de se obter espaço na mídia tradicional, que é a que afeta os tomadores de decisão? Por que não criar um relacionamento que ajude a ampliar a causa através dela? Quantas pessoas que não se engajam em redes sociais e que não fazem parte de um grupo intelectualizado ainda desconhecem o movimento? Com site e perfis em redes sociais sempre atualizados e que monitoram os passos dados pelo governo municipal, com a colaboração de inúmeros voluntários que se engajaram na causa, o movimento já conseguiu muito mais do que tínhamos. Mas ainda é possível crescer tão mais!

O mesmo acontece em diversas outras frentes. São muitos os insatisfeitos com a gestão da cultura na cidade. Mas são exatamente esses muitos que acompanham e sabem da importância de ter um conselho municipal de cultura efetivo? Existem conquistas sim, muitas, e que precisam ser valorizadas. O sucesso da realização do FIT em 2012, comparada ao possível cancelamento do evento em 2010, que aconteceu de forma enxuta naquele ano, mostra que a mobilização da sociedade dá resultado sim. Mas é possível mais. São muitos os que se revoltam com a tentativa de aumento do salário dos vereadores. Mas são exatamente esses muitos que acompanham as definições dos PPAGs, LDOs e LOAs para questionar onde estão sendo investidos os recursos municipais? Esses todos sabem o que são emendas populares e como usufruir disto? Desconfio que não. E a superficialidade das redes colabora para dificuldade de aprofundar a questão.

Por que não aproveitar tanta energia e tanta insatisfação para colaborar também com a conscientização, com a democratização desse conhecimento que é de poucos e com a mobilização real? Por que não adotar uma postura nova para problemas antigos, ainda não solucionados? Por que não passar uma mensagem maior? Entre muitos que se esforçam e usufruem das gretinhas de participação que a democracia abre, existem outras centenas que apenas navegam. Centenas que adotam a mobilização de ponta dos dedos. Centenas que buscam apenas o status do engajamento virtual. E centenas que poderiam fazer tanto mais, se soubessem como. Assim, eu me questiono: Fora Lacerda, sim. Mas, e depois?

ps: já me prevenindo, aviso que esse é um desabafo meu, em um blog pessoal, que reflete uma opinião minha e não tem nenhum outro fim – político, social, cultural, neoliberal, ditatorial, etc., etc.

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