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Somos todos iguais?

Somos todos iguais?

Sempre me incomodei com a tendência geral de buscar estabilidade. De não querer lidar com o caos, de ver por trás da imagem. Vejo o mundo ao meu redor e não entendo nada. Lembro de uma cena de “Adeus, Lenin” que me marcou: quando ele atravessa o muro, vê o outro lado, vai a uma locadora de filmes em que uma mulher loira, com seios falsos entretém todo mundo enquanto todo o resto é nada. As propagandas de comida, as mais deliciosas que são sempre as proibidas e que trazem sofrimento a quem quer manter um padrão de beleza. Manter-se medíocre, ou, se pesa a palavra, ficar na média é sempre o lugar mais cômodo. Nem que para isso seja preciso criar um mundo de fantasias.

Um dia desses li no Facebook e mexeu comigo: “You´re not deep. You´re not an intellectual. You´re not an artist. You´re not a critic. You´re not a poet. You just have internet access“. Achei engraçado pensar que a ideia de ter acesso livre a informações trazidas pela internet nos faria mais livres e mais diversos. Pouco tempo depois, vejo na rede social que, se fosse real, seria o terceiro país mais populoso do mundo, um compartilhamento contínuo de frases, fotos, pensamentos dos outros. Ninguém mais fala o que pensa, ninguém precisa dar a cara a tapa. Basta compartilhar uma foto de impacto com uma frase “Eu sou contra xxx” e ali você se expõe e se posiciona diante dos seus amigos virtuais. Ufa! Depois de se livrar dessa imagem de ser um “acrítico”, fico pensando quantos dos que compartilharam vídeos de Belo Monte, por exemplo, gostariam de levar a discussão para frente. Quantas daquelas pessoas que são eternas formadoras de opinião no Twitter discutiriam com propriedade uma forma de aproveitar melhor a internet como fonte de conhecimento ou se posicionariam diante de uma ideia de Creative Commons quando o trabalho fosse seu. Ou, por fim, fico pensando quantos de nós realmente estaria disposto a levar as discussões para além do âmbito da piada e do humor – sem virar aquela pessoa chata que é excluída de mesas de bar por não concordar com algumas questões do mundo muderno.

Lembro de uma conversa recente com um amigo. Comentei estar assustada com o controle que a internet tem sobre a gente. O quanto é assustador escrever uma palavra no Gmail e, em pouco tempo, anúncios publicitários para o meu perfil aparecem ao lado. Ou buscar algo no Google e ele mesmo me corrigir: não seria isso? Ou aquilo?. E observar que nas laterais do Facebook ele me conta a história da minha vida e ainda pergunta: “As fotos deste álbum foram tiradas em Vancouver, verdade? Por quê não adicionar a localização?”. Eu limitei minha revolta à falta de liberdade, mas meu amigo acrescentou: “Você já pensou que podemos estar todos nos tornando iguais?. Do tipo, se você é do tipo que gosta de séries americanas e Kings of Convenience e seus amigos também, todos os anúncios e publicações ao seu redor vão te levar sempre para o mesmo caminho. Você não sai disso, não muda de opinião, não confronta. Você vai sendo sempre o mesmo”. Fiquei assustada.

Voltei a pensar nisso quando li um artigo no Observatório da Imprensa sobre as mulheres na Tv, da Norma Couri. Claro, me interessei e sensibilizei pela fala sobre a mulher, criada em torno da troca Fátima-Patrícia e toda a novela que surgiu sobre o tema. A especulação de que as rugas de Fátima estariam incomodando a tv HD ou ainda sobre a mulher que deixa o trabalho com o marido e vai criar um programa matinal. Para mulheres, imagino, que são a maioria que está em casa durante o período da manhã. Naquele cenário, William, o editor-chefe e marido, manifestou também seus desejos e apresentar um programa automobilístico era um deles. Nisso, claro, cabe ainda pensar que o casal exemplo do jornalismo segue os padrões do que se espera de uma mulher e esposa e de um homem e marido. Nada poderia sair da margem. Mas Norma tocou em um ponto que me fez voltar a todos os pensamentos que me cercam: ” De repente tudo vira novela na Globo, cada jornalista desfia sua história pessoal e a paixão pela profissão. Mas há muito tempo uma reportagem não estremece um coração ou uma investigação instiga os neurônios do lado de lá da telinha.(…) Tudo naturalmente voltado para o público feminino porque os homens estão plugados no futebol. E o que deveria ser a grande reportagem com jornalistas de raça enfiadas de corpo e alma no lamaçal, apresentando histórias de peso mesmo descabeladas, desgrenhadas e com jeito de gente real, virou uma raridade, quase um oásis no tempo dos big brothers onde tudo soa tão natural e quase verdade”. 

De tudo isso, ainda lembro de uma palestra que assisti recentemente do Marcelo Tas, no Fórum das Letras. Tas perdeu meu prestígio ano passado, durante as eleições presidenciais, quando o vi defender seu ponto de vista e acusar os outros de forma agressiva. Eu sinto vergonha de tudo que aconteceu nas eleições do ano passado, mas, principalmente, daquelas pessoas que colaboraram para gerar ódio entre dois lados, esquerda e direita, PT e PSDB, e quaisquer outros termos maniqueístas que existam para isso – como se política fosse perfeitamente encaixada em dois lados opostos. Enfim, Tas veio à Minas Gerais para comentar ofenômeno CQC, do qual ele sente tanto orgulho. Orgulho porque “ouço na rua jovens que voltaram a ler jornais depois de assistirem às nossas denúncias”. Alguém da plateia perguntou sobre um vídeo que o CQC não mostrou, uma entrevista com um político (esqueci quem) que soube responder perfeitamente às perguntas e mostrava que não era possível generalizar a ignorância política do Congresso Nacional. Tas respondeu com segurança: a entrevista não foi mostrada porque não estava dentro da proposta daquela matéria, em que vários políticos se embaraçavam e não sabiam responder sobre suas funções ou sobre a realidade do país. Fiquei me perguntando qual direito uma pessoa tem de querer semear infinitamente a descrença sobre quem governa um país, manipular isso, fortalecer um grupo muito grande dos que repetem sem parar que “o país é uma vergonha”, mas nunca se dispôs a discutir em público quais são as estruturas políticas e a história que nos leva a ser o país que somos hoje. Mesmo nas suas propostas mais inovadoras e “confrontadoras”, a televisão cumpre sempre o seu papel de deixar as coisas como estão.

Manter o status quo é necessário. Recentemente viajei para ver o show do Pearl Jam, banda que amo há muito tempo. Senti uma felicidade legítima, fiquei alegre, vi ali um grupo que admiro dando sangue, gritando, cantando com dor por horas, como aqueles que se doam de verdade para agradar quem, em troca, lhes dá tanto. Arrepiar com aquelas músicas me fez lembrar o tanto que me arrependi de não ter ido ao show do RATM no ano passado. O show, segundo a mídia, foi tumultuado, agressivo, levou fúria ao público.  Tudo isso porque levantaram polêmica, falaram sobre temas como o Movimento Sem Terra, sobre a segregação do público entre VIPs e não VIPs, ou entre os que tem mais ou menos dinheiro. Em meio à onda de músicas bonitinhas e fofas sobre querer dançar com você e encontrar a felicidade nos dias de chuva, aqueles que cantaram política e se indignaram com o mundo são os chatos sem vez.

No blog Scream & Yell li recentemente um texto sobre o fator Foo Fighters, banda que levou vários fãs a loucura por não vir ao Brasil – e sempre me deixou sem entender. Mais ainda sem entender o frenesi de um festival americano que chega ao Brasil, a fortuna que se paga por ele e as bandas que vem dar as caras por aqui. O texto sobre FF me tocou em particular: “Será que o mundo de hoje vê a banda de Grohl como uma espécie de ícone, acima do bem e do mal? Se isso é verdade, o que parece ser, de fato, há vários processos empobrecedores em curso, responsáveis, num futuro a curto prazo, pela imbecilização completa das pessoas com poder para fazer a diferença no mundo. E quem são elas? Eu e você, que está lendo essa coluna. Se não houver uma guerra mundial entre famintos e abastados, as pessoas das classes médias, com acesso à informação e a um mínimo de qualidade de vida, deverão ser as únicas capazes de coletar algum conjunto de dados capazes de tornar as coisas mais justas por aí. Mas, você dirá, esse cara está viajando, é apenas uma banda de rock, é o Foo Fighters, oras. Sim, é uma banda de rock, mas são as pequenas – e as grandes, claro – frações que mostram o quanto a estrutura está corroída, carcomida. Como escreveu Ana Maria Bahiana certa vez, “será que mais uma geração caiu nas garras da arteriosclerose do “classic rock”?”

Não iria muito longe ao pensar que, apesar da similaridade entre as duas, Adele faz sucesso como a mulher que, apesar de ser gordinha, se destacou no mundo da música enquanto Amy, embora admirada, tenha virado chacota por não ter conseguido se adaptar ao mundo que vivia. Nossos guias sempre serão aqueles com o poder de superação.

Levo tudo ainda para o lado pessoal, privado, para o aconchego do lar e das relações próximas que estabelecemos com família, amigos, namorados. Recentemente, em uma conversa com uma amiga, comentamos o quanto é incômodo e como não sabemos lidar com uma amiga que não está feliz sem um motivo aparente. Afinal, todos devemos ser felizes o tempo todo. Ou não? Minha amiga estava vivendo uma fase ruim, angustiada, não se sentia feliz. Ela tinha tudo que uma pessoa feliz necessariamente deveria ter. Mas, graças a Deus, ela não fazia questão nenhuma de fingir uma felicidade aparente na frente de ninguém. No começo foi realmente incômodo. Sentar na mesa de bar e não saber muito bem como contar o quão incrível sua vida estava ou deveria estar. Ou simplesmente não saber dar um conselho pronto para aquela tristeza gratuita. Parece ser cada vez pior trombar com pessoas que não se encaixam no padrão de felicidade que criamos.

Com isso, pensei e reconheci o tanto que sempre adorei e admirei os fracassados. Mas os fracassados mesmo. Aqueles que assumem seus limites, que não criam personagens, que assumem aquela dor e vivem. Aqueles que vêem que o trabalho não está bom, que assumem isso e se esforçam para melhorar ao invés de se desculparem eternamente “ah, já dei o meu melhor”. Aqueles que querem se analisar não porque a vida está ruim, mas porque querem enfrentar quem são, por trás daquele emaranhado de fantasias. Aqueles que peitam o mundo, os ideais de felicidade, as conversas animadas de bar, o desfile dos gatos pardos da noite e assumem “não estou feliz”, “não sei o que quero da vida”, “não estou dando conta” ou um simples “preciso de ajuda”. Quem será o winner e quem será o loser então, Charlie Brown?

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